O professor Marco Antonio Gehlen detalha sua contribuição no curso e destaca a necessidade de jornalistas mais conscientes e críticos

 Por Elvira Santana

Doutor em Comunicação Social, o professor Marco Antônio Gehlen chegou no curso de Jornalismo da UFMA em Imperatriz em 2009. Tendo uma atuação ativa no curso desde então, ao longo dos seus sete anos de docência, já passou por várias disciplinas: Laboratório de Fotojornalismo, Laboratório de Programação Visual, Webjornalismo, Laboratório de Jornalismo Impresso, Redação Jornalística e Jornalismo de Dados. Escolheu o jornalismo como profissão por afinidade e segue a carreira acadêmica por prazer pelo aprendizado e pelo desafio da troca de experiências. Nesta entrevista, fala de como vê o profissional jornalista de Imperatriz, discute sobre como a Universidade tem mudado o contexto comunicacional da cidade e comenta sobre os dez anos do curso de Comunicação Social/Jornalismo do município.

 

O que o levou a escolher o Jornalismo como profissão?

Quando conclui o ensino médio, pensava em algumas profissões e imaginava como seria trabalhar naquilo, por exemplo, odontologia, por ter tios que eram dentistas. Daí pensava que eu teria que passar muito tempo em consultórios sem muita mobilidade, então logo percebi que não me agradaria tanto, e de fato comecei despertar o interesse e ver que o meu perfil era mais ligado às áreas de cursos sociais. Diante disso comecei a olhar para a Comunicação Social com bons olhos. Por ocasião, comecei a pensar que Jornalismo seria interessante. Na época também pensei em Publicidade. Acabei indo para área da Comunicação e depois fiz a escolha por Jornalismo já pensando no que eu poderia desenvolver como profissional.

Você atuou durante muito tempo no Jornalismo relacionado ao agronegócio, esse período foi por afinidade ou oportunidade de mercado?

Quando eu saí da graduação, tinha o perfil de gostar de números, aí por uma lógica de proximidade e por já está trabalhando com algumas assessorias na área rural, eu, naturalmente, quando cai numa redação de jornal impresso, minha experiência me direcionava para essas editorias. O rural na realidade não foi minha principal atividade, eu trabalhei bastante com ele, mas economia foi o principal. Os cadernos de rural nos jornais que trabalhei eram apenas uma vez na semana, economia era editoria da semana toda. Então fui repórter de economia e dentro dessa editoria havia pautas da área de rural. Ao mesmo tempo em que meu perfil por gostar de números me levou para essas editorias, também fui vendo que era uma oportunidade, porque quem conhece um pouco e gosta dessas áreas parece ter campo um pouco maior em função de ser um repórter diferenciado, já que é difícil encontrar pessoas do jornalismo com interesse em tais áreas.

O que o motivou a escrever o livro “Agro-Alimento, O Anuário da Produção Agrícola e Pecuária do Mato Grosso do Sul”?

Depois de trabalhar muitos anos na redação de jornal, estava a mais de seis anos escrevendo para economia e agronegócio e me deparava com uma realidade como a maranhense, de que você não tem dados sobre as coisas. É muito difícil você encontrar números exatos tabulados em algum lugar. Então numa iniciativa de tentar suprir partes desses dados, procurei uma entidade, que é a Federação da Agricultura do estado onde eu morava, e ofereci uma pesquisa para eles que trouxesse um mapeamento de dados estatísticos sobre a produção, e virou o Agro-Alimento, uma publicação que traça dados estatísticos sobre as onze principais culturas do Mato Grosso do Sul.

 O que despertou seu interesse pela carreira acadêmica?

Paralelamente ao jornalismo fui procurando um mestrado ou uma especialização. Fiz mestrado em Agronegócio para fundamentar ainda mais o que escrevia. Só que depois você passa a ser incorporado no mercado acadêmico meio que por osmose e naturalmente fui levado a olhar para os editais. Virei professor depois do mestrado, porque ele me mostrou algumas possibilidades de continuar trabalhando com o jornalismo, mas agora discutindo o que eu já tinha de conhecimento no jornalismo impresso, em outras áreas, como o agronegócio, o rural e o econômico.

Você chegou como professor no curso de Comunicação Social/ habilitação Jornalismo da UFMA de Imperatriz em 2009. Recentemente o curso comemorou 10 anos de existência, como se sente ao lembrar que faz parte dessa história?

É muito prazeroso para nós que quando chegamos, vimos os equipamentos todos dentro de caixas ainda e começamos a montar os laboratórios. Hoje, quando o curso já está mais consolidado e que já temos laboratórios funcionando, ainda que com necessidade de ajustes, é muito legal você ver que esses dez anos comemoram uma evolução muito grande: 176 alunos formados no período de seis anos, doze turmas e muita evolução na área de pesquisa, extensão e ensino. Tivemos trabalhos aqui, nas defesas de TCC, que mostram como esses profissionais estão inseridos no mercado de trabalho e que vê este mesmo mercado já tendo algumas transformações por está absorvendo nossos alunos. É muito prazeroso ter contribuído com esses dez anos e se programar com mudanças e melhorias para os próximos dez.

Como você avalia a influência da universidade no contexto comunicacional e midiático da região e mais especificamente de Imperatriz?

Acho que Imperatriz tinha muita imprensa antes do curso começar formar, mas ela era praticada por pessoas de um jornalismo mais prático e sem informação, tínhamos uma onda de blogs muito forte e que ainda tem uma presença significativa na região. No entanto, com a formação dos alunos, a gente começa a sentir que o mercado vai sendo alterado. Porque mesmo que esses alunos comecem a ir para o mercado com seus despreparos e desconhecimentos da vida prática, eles conhecem muito dos processos do modo acadêmico, gerando diálogo com jornalistas mais experientes. Vão trazendo novos conceitos da ética jornalística, de como fazer um trabalho que pense a informação como predominante. Então isso dá uma arejada nos veículos de comunicação, e essa troca tem sido favorável. A gente percebe uma qualificação maior das notícias nos meios que hoje em dia estão ocupados por esses jornalistas formados.

 Pensando em sua atuação ao longo dos anos que esteve aqui, como você descreveria sua contribuição para o progresso e melhoria do curso?

Eu acho que a gente contribuiu, eu, outros professores que vieram e hoje uma nova leva de professores que veem de fora, cada um trazendo sua experiência. Hora uma experiência acadêmica, hora uma experiência profissional. Pelo perfil de ter passado na prática do jornalismo, uma contribuição que eu sempre dei nas disciplinas, teria sido esse contato com mercado, no sentido de dizer como é uma redação, como se trabalha o jornalismo impresso na prática, como é a fotografia, como se trabalha com a diagramação. Essa experiência de ter vivido dentro do jornal faz com que eu incorpore exemplos de uma vivência cotidiana da redação jornalística. Além disso, disciplinas que no começo ainda não eram estruturadas e não tinham professores e que eu atuei no início, como Fotografia e a Elaboração de Projetos Gráficos, incorporaram alguns projetos de extensão que se tornaram eixo do curso, como o Imperatriz Notícias e o Arrocha. Isso faz com que os alunos tenham ganhado de vivências e experiências em bons projetos de jornalismo e extensão, o que favoreceu o curso nesses sete anos.

Professor, é possível afirmar que os estudantes do Curso de Jornalismo têm se tornado cidadãos e profissionais do jornalismo mais críticos e uma audiência mais consciente?

A gente espera que eles sejam mais críticos e conscientes. Acho que são sim mais críticos e conscientes no sentido de separarem o que é o jornalismo e informação do que é publicidade e dinheiro dos grupos que sustentam jornais. O jornalista, quanto mais se forma e passa pela academia, mais tenta ficar distante dessa lógica e se preocupar mais com a notícia. Então, nesse sentido, eu acho que eles são um pouco mais críticos diante do que tradicionalmente se fazia no jornalismo nacional, dos estados e aqui mesmo em Imperatriz.

 Professor, o aluno de Jornalismo tem recebido uma formação que lhe permita adquirir as competências técnicas da profissão e, ao mesmo tempo, servir, enquanto profissional do jornalismo, ao interesse público?

A grade curricular da Universidade atual, os professores, as experiências que tem aqui e as possibilidades de participação nos projetos de extensão e pesquisa fazem com que esses jornalistas de fato tenham condição de sair aptos para adentrar o mercado. É óbvio que, bem como em todas as outras áreas, ao se chocarem com o mercado, com a dinâmica dos meios de comunicação e com as experiências dos antigos jornalistas, você acaba aprendendo muitas outras coisas que a academia não te ensinou, foi assim comigo e com todas as pessoas. Eu creio que são formados com uma boa base para adentrar para o mercado e para depois ir melhorando ele.

Quais suas expectativas para o futuro do curso, tanto para o campus quanto para a cidade?

Dez anos de curso, mas só há seis que a gente começou a formar os primeiros jornalistas, então o impacto mercadológico, de estar fornecendo profissionais para a cidade e arredores, ainda é apenas de seis anos para cá. Agora já temos uma pós-graduação que favorece muito na evolução de como os profissionais jornalistas estão pensando as assessorias, melhorando a comunicação institucional lá fora. Nosso curso está se preparando para ter um mestrado, que melhora e qualifica ainda mais esses profissionais e a região. Desse modo, a gente tá avançando ao levar conhecimento cientifico e prático para esses profissionais, e cada um deles contribui com a entidade ou empresa que trabalha. A vinda do mestrado seria o maior projeto do curso a partir de agora. O rumo está atrelado a isso: desenvolver um curso cada vez melhor, com professores melhores para, daqui a pouco, termos um local de referência nos estudos de Comunicação e Jornalismo, com benefícios para os alunos durante a formação de quem vai sair daqui para o mercado de trabalho.